Prece da maturidade

Maturidade_

Pai, agora que já não estou no tempo de alimentar ilusões, aguça meus sentimentos para que eu perceba a beleza das realidades.
Pai, agora que as opções foram feitas e tantas portas se fecharam em definitivo, dá-me a aceitação para que as renúncias são me sejam um fardo pesado demais.
Pai, agora que tantos desenganos, tantas incompreensões repetiram lições de ceticismo, conserva minha disponibilidade frente às criaturas.
Pai, agora que as forças do meu corpo começam a falhar, alerta meu espírito, livra-me do comodismo, redobra a minha vontade.
Pai, agora que já aprendi a precariedade de todas as coisas, as limitações de todas as lutas, as proporções de nossa pequenez, afasta-me do desânimo.
Pai, agora que alcancei o ponto da perspectiva que me dá a exata visão do pouco que sei, desvia-me da defesa fácil de colocar viseiras e ajuda-me a envelhecer com a abertura dos corajosos, dos que suportam revisões até a hora da morte.
Pai, agora que aumenta o círculo das criaturas que me olham e esperam alguma coisa de mim, dá-me um pouco de sabedoria: ensina-me a palavra certa, inspira-me o gesto exato, norteia minha atitude.
Pai, agora que perdi a abençoada cegueira da juventude e só posso amar de olhos abertos, protege-me da amargura.
Deus Pai, concede-me a graça de não chorar o passado, de continuar disponível, de não perder o ânimo, de envelhecer jovem e de chegar à morte com reservas de amor.

(Texto lido por Maria da Glória Chaves Silva (Virgínia-MG) na missa de encerramento do 5º Encontro da Feliz Idade).